Feijoada Completa Sandra Crespo


04/03/2008


Brasília, uma cidade brasileira

Ancelmo Gois,

 

Eu leio sua coluna no Globo há muito tempo. Embora eu não concorde com tudo o que você diz (e nem é essa sua intenção, claro), eu gosto muito. Acho bacana a informalidade, aprecio suas declarações de amor ao Rio e às mulheres, admiro o senso de humor.

 

Então, eu vou tentar não ser mal-humorada, mas estou furiosa com você. Por causa de uma nota, publicada hoje, cujo título é "Miss Biônica".

 

A nota diz: "As candidatas a Miss Brasília 2008 não foram escolhidas por concurso, mas por indicação. Sabe como é. Faz parte dos usos e costumes nativos ungir pessoas por indicação política."

 

Poxa, Ancelmo, agora você pegou pesado. Primeiro porque a população de Brasília em particular – e a do Brasil, em geral – não está mais nem aí para concurso de miss.

 

Segundo, a história mostra que eleições livres Brasília só conhece desde 1986. Antes disso, as regras do regime militar impediam a população do Distrito Federal de escolher seus representantes. A partir daí, elegemos a cada quatro anos governador, 24 deputados distritais, oito deputados federais e três senadores.

 

Portanto, indicação política foi um costume "nativo" durante os anos de chumbo, não uma opção dos habitantes de Brasília.

 

Terceiro, Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Quer dizer então que eu, nascida (em Minas Gerais) três anos depois, não vivi para ver o Brasil ético, puro, sem ladrão nem corrupção. Claro, porque parece que toda essa esculhambação surgiu no momento em que Juscelino trocou a capital do País.

 

Senão, vejamos: os políticos, que são eleitos pelas populações dos 27 estados, vêm para Brasília puros e castos. Mas esta terra vermelha, este céu absurdo, estes prédios modernistas fazem miséria, dão um nó no passado ético desses santos representantes. Então eles se transformam no cão de calçolão e danam a fazer falcatruas a torto e a direito.

 

Maluf era um exemplo de retidão até ser eleito deputado federal e começar a respirar este ar corrompido do Planalto Central. Collor, coitadinho, veio para Brasília inocente como um bebê. Mas o demônio o aguardava na Casa da Dinda, às margens do nefasto lago Paranoá. Assim foi com outros governantes, juízes, deputados e senadores...

 

Caro Ancelmo, vindo da Daniela Cicarelli até que dá para agüentar. Mas de você...dói.

 

Porque penso nos brasilienses que conheço e que suam para ganhar o pão de cada dia. Penso no meu filho adolescente que aqui nasceu e está sendo criado, e nos filhos dos meus amigos e dos operários, das empregadas domésticas, dos porteiros e babás que ralam no Plano Piloto e vivem em Ceilândia, Samambaia, Riacho Fundo e Recanto das Emas.

 

Fica parecendo que esse pessoal não está à altura do resto do Brasil, pois é de Brasília.

 

Nossa cidade abriga muita gente. Pessoas que ficam por aqui também nos fins de semana, enquanto os políticos estão em seus estados. É uma cidade muito maior do que eles. Por isso mesmo, cheia de encantos, mistérios, conflitos. E defeitos também. Uma cidade brasileira.

 

Então, é este o furioso recado. Aquele abraço!

Escrito por Sandra Crespo às 19h02
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14/02/2008


Au revoir, Henri Salvador!

 

Um dia se tem de morrer, e Henri Salvador morreu ontem, 13 de fevereiro. Eu fiquei muito triste, apesar de saber que ele tinha já 90 anos de idade: H. Salvador apareceu tarde em minha vida.

 

Só fui descobri-lo há uns poucos anos, embora já conhecesse (e adorasse) “Dans Mon Île”, que Caetano Veloso imortalizou nos anos 80.

 

Pois bem, eu me encantei com Henri Salvador acho que pelos mesmos motivos de seus outros fãs: o suingue, a voz aveludada (Sarkozy acertou alguma coisa, finalmente), o bom humor. E, de quebra, o amor pela música brasileira, que fez dele talvez o inspirador da bossa-nova, como ele mesmo se proclamava.

 

De vez em quando eu o via num daqueles programas da TV5 (francesa), sempre conversando alegremente e dando gargalhadas. Parecia o Dorival Caymmi.

 

Ele tinha 90, e ainda assim gravou um disco supimpa em 2006, de tributo à música popular brasileira. Tinha, inclusive, plano de gravar outro agora, que pena não deu tempo...

 

Na capa de outro álbum, o maravilhoso “Chambre avec Vue”, ele veste calça, chapéu e sapato brancos com camisa de manga curta estampada de azul. Sentado numa cadeira em uma espécie de quintal de casa simples, ele ri de banda, parece um baiano. A gente se identifica na hora com aquela figura, e quando o ouve cantando, se apaixona.

 

Abaixo, a letra de “J’ai vu”, para mim uma das faixas mais bonitas desse disco. Acho que serve como homenagem, pois imagino que essa letra expressa exatamente a intensidade com a qual Henri Salvador saboreou cada momento de sua vida.

 

Que sua música não seja esquecida, para sempre alegrar também as nossas vidas.

 

 

J’ai vu

Tant de mers tant de rivages

Tant de ciels de paysages

J’ai vu

Tant de escales et tant de ports

 

J’ai pu

Me chauffer au creux des îles

Me cacher au fond des villes

J’ai pu

Marcher sur les sables d’or

 

J’ai vu

Des matins

Des joies de chagrins

Des rires et d’envies

De peines et de bonheur dans ma vie

 

J’ai cru

Être au bout de l’aventure

Mais mon coeur lui me murmure

Qu’il y a tant de rêves à vivre encore

 

(Henri Salvador/ H. Modo)

Escrito por Sandra Crespo às 15h38
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25/01/2008


Johnny: ver o livro, ler o filme

Mais um filme? Então este blog vai disputar com o Rubem Ewald Filho, hehehe .

Na verdade, mais do que sobre uma produção brasileira que está em cartaz, faço considerações acerca de ler o livro e depois ver o filme. Troço problemático.

Na terça-feira eu acabei de ler “Meu Nome Não é Johnny”, de Guilherme Fiúza, e fui assistir a “Meu Nome Não é Johnny”, de Mauro Lima. Porque presa ao texto ainda pulsante na memória, vivi agonias no filme, buscando entender o truque dos roteiristas para criar “ganchos” entre situações marcantes vividas por João Guilherme Estrella. Cenas que fossem capazes de resumir em cerca de duas horas a biografia contada em 336 páginas. Nessa tarefa mental de decifrar os segredos dos outros, acho que deixei de curtir alguma coisa no filme – algo se perdeu no ar, e não sei explicar o quê...

Gostei demais do livro. O autor – jornalista carioca que por sinal é primo do biografado – escreve muito bem. Para os desavisados, o livro conta a história real de um filho da classe média carioca que se meteu a ser um grande traficante de cocaína em um período dos anos 80/90. E foi preso e condenado a dois anos.

Como era consumidor contumaz da droga, João Guilherme começou a atuar no esquema da venda de cocaína pura como pequeno distribuidor; e acabou “barão”, garantindo o embalo para a nata da Zona Sul do Rio de Janeiro.  Ganhou dinheiro, mas torrou tudo, pois tinha a farra como meta final das transações, que chegaram até a Europa e movimentaram milhares de dólares.

Gostei do filme, e achei que foram criativas algumas saídas de adaptação do roteiro. Mas fiquei amarrada ao livro. E por exemplo penso que, se estivesse no lugar do diretor, teria escolhido outro ator para representar o João Estrella. Selton Mello é muito talentoso e simpático, não se discute. Porém, não é carioca o suficiente. Senti um descompasso na fala do personagem real e do ator. Um samba atravessado.

Nesse período em que viveu tanta loucura, João é doce e expansivo. Não tem pudores em se expor, mostra para todo mundo a que veio: um emissário de Baco que acha que a festa nunca vai acabar. Mas Selton contém o grito, os berros, a catarse individual. É mineiro demais para isso. Aliás, nem sei se ele é de Minas. Mas tem jeito mineiro, e pronto.

Essas palavras não têm nem de longe a intenção de desmerecê-lo, pois S. Mello é um dos melhores de sua geração. Adorei ele n’O Auto da Compadecida, foi ali que vi que o menino era bom e ia além do que mostram os galanzinhos da Globo. Mas cinema é isso, que nem a vida: a gente acha que foi melhor em algumas cenas, e menos em outras.

Só sei que fiquei muito satisfeita em ler uma biografia tão legal feita por um escritor não celebridade. E brindo também ao filme, que conseguiu captar a história no que ela tem de mais verdadeiro, sem pieguice ou lição de moral.

A vida como ela é.

PS: ah, a Cléo Pires estava bem na fita!

Escrito por Sandra Crespo às 02h18
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20/01/2008


Ousando criticar Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho é, a meu ver, um dos melhores documentaristas de todos os tempos. Além do perfeito “Cabra Marcado pra Morrer”, ele fez “Edifício Master”, outra obra-prima, que retrata o perfil de alguns moradores de um folclórico prédio de Copacabana. Pensando em toda essa trajetória – e influenciada pelos elogios da mídia e de alguns amigos – eu fui assistir ontem a “Jogo de Cena”. E saí desapontada do cinema.

Sim, Coutinho continua com a capacidade – o talento – de extrair os mais interessantes e desconcertantes depoimentos das pessoas. Quem me dera eu, como jornalista, tivesse esse dom de “dissecar” o entrevistado.

Em “Jogo de Cena”, mulheres comuns, ou seja, não atrizes ou celebridades, falam diante de uma câmara focada em close-up, e essa proximidade, claro, faz essas pessoas relatar, sem pudores, fatos importantes de suas vidas privadas. Histórias tristes, às vezes dolorosas, outras vezes engraçadíssimas.  Algumas dessas “atuações” são repetidas por atrizes, que por sua vez em alguns momentos fazem comentários sobre a experiência de interpretar um personagem real.

A parte do filme com as atrizes é que eu acho o ponto mais fraco. Tem hora que a repetição se torna cansativa. A teorização também.

Então, ok, o filme é bom, e não seria o caso de ficar desapontada. Lógico que tem coisas boas no filme, senão não seria Eduardo Coutinho. Porém, senti um pouco de falta de ar em meio a tanto “olho no olho”. Aquele enquadramento – o rosto da personagem que recheia quase toda a tela – é druris. Outra coisa é o formato, muito parecido com o que acontecia toda noite ao final da novela “Páginas da Vida”: uma pessoa comum falava de uma experiência marcante que tivesse vivido. Então, tinha hora que o filme parecia imitar a novela.

Enfim: um filme interessante, mas não obra-prima, como muita gente classificou. Acho que essa história de obra-prima não era nem mesmo intenção do Eduardo Coutinho, que me parece ser um cara desprendido, que trabalha movido sobretudo pelo amor ao seu ofício.

Fica, então, esta humilde crítica, se é que essas duas palavras podem andar juntas algum dia.

Escrito por Sandra Crespo às 23h31
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19/01/2008


a letra da canção

Les cerisiers sont blancs

 

Paroles: Maurice Vidalin. Musique: Gilbert Bécaud   1968

 



Le cerisiers sont blancs,
Les oiseaux sont contents,
Revoilà le printemps, ah !
Je dors mal dans mon lit :
Ma cousine est trop jolie.

Est-ce normal, maman,
Ce merveilleux tourment
Qui m'fait rougir tout l'temps, ah ?
Si je me mariais,
Est-ce que tu me gronderais ?

Paul n'a pas d'soucis comm'ça :
Le p'tit Paul est trop petit pour ça.
Le P'tit Paul, c'est encore un gamin.
Il joue aux billes,
Il court dans le jardin,
Ne pense pas aux filles.

Les cerisiers sont blancs
Et c'est très énervant
Dès qu'on est un peu grand, ah.
Maman, ne te fâche pas,
J' n'ai plus l'âge de jouer à la
à la, à la bébête qui monte,
Qui monte, qui monte, qui monte maman !

Les cerisiers sont blancs,
Les oiseaux sont contents.

Les cerisiers sont blancs,
Les oiseaux sont contents,
Ma cousin', elle m'attend, ah.
J'suis pas intimidé,
Je suis un homme et un vrai.

Bonjour, comment tu vas ?
Ta coiffur', c'est pas ça
T'as un pli à ton bas, ah...
Cousin', faut pas pleurer !
Embrasse-moi, on fait la paix.

Paul, c'est l'heur' de ton goûter.
Ecout', Paul, maman va s'inquiéter.
Au r'voir Paul, va jouer aux quatre coins
Va jouer aux billes,
Va jouer à rien,
Mais laisse-nous tranquilles !

Les cerisiers sont blancs,
Les oiseaux sont contents.
Je n'suis pas mécontent, ah.
J' n'aurais jamais cru ça.
Ell' savait jouer à la

Escrito por Sandra Crespo às 23h21
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Mentiras de Escritor

 

De repente, numa segunda, eu vi Roman de Gare (aqui no Brasil intitulado Crimes de Autor), filme muito francês que me pareceu homenagear Truffaut; eu que não sou especialista em cinema ouso dizer que este Roman me lembrou vivamente Vivement Dimanche, com o perdão do trocadalho.

Com a mesma e ainda linda Fanny Ardant. Paris. Também as estradas. E mais. Telhados e vinhedos de Beaune, vaquinhas alpinas. O mar e Cannes ao fundo. Diálogos quase nonsenses. E a simplicidade desconcertante, porque sofisticada, de Truffaut aos olhos de Claude Lelouche, que a meu ver nem sempre acerta a mão – ao contrário do homem que amava as mulheres que (por isso mesmo) é feliz mesmo quando erra...

Tem também humor e a França ao fundo. O amor pelas palavras dá o rumo dessa história engraçada e às vezes previsível, às vezes impagável.

Les cerisiers sont blancs, e tous les romans sont de gare...

 

PS: No próximo post, segue a letra da canção de Gilbert Bécaud que marca o filme. pena que não encontrei no you tube.

Escrito por Sandra Crespo às 23h21
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07/10/2007


Fumaça

 

 

 

Semana passada foi um trecho do Parque Olhos d’Água, meu vizinho, fato que muito me consternou, e hoje foi a vez de a grama em frente ao meu prédio pegar fogo. Em Brasília estamos cercados de soja e de fogo no cerrado, daqui a pouco não sobra nem um sabiá.

 

Por enquanto, ainda bem que eles cantam – e como cantam aqui na minha janela, acompanhados de bem-te-vis, periquitos, quero-queros, corujas e cigarras. Bom, a cantoria das cigarras acaba logo que vêm as primeiras chuvas, daí que a gente fica doida por um cala-boca bem dado por São Pedro.

 

Rogai por nós, meu santo, e manda uma água bem fresca do céu!

Escrito por Sandra Crespo às 12h39
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10/07/2007


Entre Veja e Domingão, uma classe abaixo da média

Logo após assumir o cargo – e bem antes de dar o infeliz conselho para os passageiros abandonados nos aeroportos –, a ministra do Turismo, Marta Suplicy, anunciou um programa de sua pasta voltado ao turista de baixa renda. A finalidade do governo, segundo a matéria divulgada então pelo Globo online, era aproveitar o aumento do poder aquisitivo das classes C, D e E e proporcionar a esse segmento o acesso a maravilhas do Brasil que só são vistas pela televisão.

Bacana, pensei. E resolvi dar uma espiada na opinião dos leitores.

Qual não foi minha surpresa! Todas as cartas explodiam de indignação. À parte os termos preconceituosos e grosseiros contra a ministra, as manifestações dos leitores internéticos tinham em comum frases do tipo: "que absurdo, em vez de se preocupar com educação e saúde, esse governo..."; ou: "será que a ministra não sabe que o dinheiro dos pobres não dá para viajar?".

Favelas

Muitos meses depois, leio no mesmo Globo – desta vez na edição impressa – que o governo federal anunciou o investimento de R$ 3,8 bilhões em diversas favelas da cidade do Rio de Janeiro. O dinheiro será destinado a obras de saneamento, urbanização e também à construção de um teleférico no Complexo do Alemão. Semelhante ao de Medelin, na Colômbia, o teleférico vai facilitar o acesso às partes mais altas da região onde vivem 80 mil pessoas.

Novamente os bravos leitores chiaram. As cartas reclamavam que o governo estava institucionalizando as favelas, e defendiam a aplicação do dinheiro "nas comunidades pobres da Baixada". Ou seja, nas favelas horizontais situadas bem distantes da Zona Sul.

Segurança

Outra notícia que pensei ser boa, mas não para os digníssimos leitores do Globo, foi publicada ontem. Trata-se do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, que traz novidades como piso salarial nacional e programa de moradia para policiais. Também é prevista a construção de presídios específicos para adolescentes e jovens entre 18 e 24 anos. Esses estabelecimentos terão, segundo o programa, instrumentos para promover a reinserção social dos jovens, como educação regular, esportes e aprendizado de informática etc.

Ninguém, no entanto, ficou satisfeito, conforme li na edição de hoje. Isso não vai adiantar nada, decretaram os senhores leitores, não sem antes despejar sua indignação com a "corrupção" do governo e a "incapacidade" do presidente "analfabeto".

É claro que há concordância de muitas pessoas quanto à possibilidade de essas iniciativas terem sucesso e contribuir para a paz social que tanto almejamos. Porém, esses que discordam podem ser poucos, mas aparecem bastante. E aparecem não só nas singelas cartinhas.

Aparecem também em ocorrências como o massacre da empregada doméstica no ponto de ônibus, ou o soco na prostituta, ou a surra ao guarda-vidas – só para citar acontecimentos recentes registrados no Rio de Janeiro.

Paisagem

Esses paladinos da moralidade odeiam a idéia de dividir tão linda paisagem – a Zona Sul do Rio – com porteiros, babás, balconistas, frentistas e cozinheiros que contemplam o mar e a baía das janelas de suas casas situadas nos morros do Vidigal, do Cantagalo ou Dona Marta.

Esses leitores distintos, que pagam os seus impostos, querem o morro "limpo" para abrigar mansões hollywodianas. Os pobres é que se apertem nos subúrbios.

E, acinte dos acintes, além de vista panorâmica e proximidade do trabalho, pobre também vai ter direito a viagens?

Onde é que estamos?

"Teleférico no Alemão para os bandidos brincarem de tiro ao alvo?", diverte-se outro leitor que não deve imaginar a emoção que é chegar aos píncaros da favela. Claro, ele nunca precisou subir o morro, e o máximo de empecilho a sua mobilidade ocorre quando não consegue uma vaga em frente ao evento.

Estacionar está um terror.

E os "menores infratores" vão ficar numa boa estudando e comendo às custas dos nossos impostos? Onde já se viu?

Os nossos meninos são diferentes, quê que é isso. Depois da surra na empregadinha, levam uma bronca e voltam para casa, longe dos bandidos. Afinal, quando não estão bebendo, cheirando, humilhando e dando porrada nas ruas, eles são crianças de bem.

Mistura fina

Essa é a média da classe média brasileira. No Rio, São Paulo, Brasília, Salvador ou Curitiba não faz diferença, o atraso é o mesmo. Ok, já conhecemos a origem dessa tragédia – uma mistura de Casa Grande e Senzala com manuais de auto-ajuda.

Essa gente, que reclama das falcatruas dos políticos mas vive dando um jeitinho, uma carteirada; essa gente que não tem mais em quem votar porque ninguém é digno de sua confiança mas a-do-ra furar fila, estacionar na calçada, avançar sinal vermelho e jogar lixo na sarjeta...

Essa gente que passa os domingos entre o Domingão do Faustão e a revista Veja ainda vai esbravejar muito.

Mas vai passar.

Escrito por Sandra Crespo às 17h07
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07/05/2006


Chico: ida e volta

 

Fui para o Rio com Chico Buarque e voltei para Brasília com Silvio Pereira. Isso no espaço de um dia.

 

Agora vai, subo aos céus sem escala.

 

Ganhei lindo presente ontem, ao rever o Rio de Chico. Mesmo que percorrido sem tempo, o Rio sempre me arrebata, me emociona, me incomoda. Encontrar amigos, ver a paisagem, conversar com os cariocas o tempo todo em qualquer lugar, porque eles te pegam de conversa, tudo isso é bom, até que em tão pouco tempo. Eu tinha pouco mais de 24 horas para ficar no Rio, de ontem pra hoje, e fui tão feliz nesse espaço de tempo!

Botafogo, Catete, Glória e feira de São Cristóvão. Esses quatro logradouros, junto com o panorama da Praia do Flamengo hoje de manhã, me deram o gás que Evo não dá pra ninguém.

 

E para além dos logradouros, a viagem ao Rio me brinda com duas entrevistas de Chico Buarque, no Globo e na Folha. Chico aparece também depois da leitura, no meio da tarde, em forma de CD e DVD e ajuda a fechar o sábado entre amigos com chave de ouro – a chave só vai retornar à cintura de São Pedro umas horas depois, na volta do glorioso Cristóvão.

 

Chico fala pela minha boca, Chico me plagia quando diz tudo aquilo sobre o Lula e o PT. Ele copiou o meu desentusiasmo e também minha certeza de que Lula é o cara, ainda é o cara.

 

Chico Buarque foi capaz de entrar em um sonho que tive e leu nos meus lábios também que Gil está fazendo o que deve e o que pode no seu terreiro e também no terreiro geral e encanta ao cantar samba e dançar na ONU.

Chico falou também tantas outras coisas dignas e generosas, como eu havia dito em outro sonho acordado: que nossas tristes elites já deram a chance pro operário ignorante, agora sai, volta pra senzala. Eu disse isso várias vezes no boteco também, e Chico me rouba as palavras.

 

Chico Buarque subtrai minha razão com sorriso escancarado e olhos cor-de ardósia e em seguida me restitui os sentidos com suas músicas azul-poeira.

E eu sou possuída pela beleza até a madrugada, passo batida até por um engarrafamento. Mas era na Lapa, tudo bem.

 

Porém, dormi com outro.

 

O nome dele é Silvio Pereira. Assim estava escrito na capa do mesmo Globo que comprei na saída da feira de São Cristóvão. Silvio Pereira não disse nada do que não soubéssemos, mas o Globo estampou em garrafais suas palavras, de modo que todos os sites de notícias e blogs Ninho, aqueles que – como este que vos fala – se desmancham no ar, já entoavam nos mercados, Joga pedra na geni!

 

O Globo assopra e depois morde.

 

Sigo para o Galeão/Tom Jobim com Silvio, mas dispenso-o no avião mesmo. Conduzo-o ao lavatório da aeronave, descarto-o com cuidado no vazio do espaço atmosférico e na seqüência lavo as mãos enquanto vejo no espelho o que posso fazer pra chegar bem bonitinha ao meu destino.

Da janelinha, até consigo admirar Brasília. Azul de céu, não de mar. Azul empoeirado de Samambaia, Recanto das Emas, Riacho Fundo I, II e III...

O céu sem fim também arromba a retina.

 

Ainda bem que em Brasília nós temos Chico Buarque.

Escrito por Sandra Crespo às 17h47
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08/02/2006


Faça samba, não faça guerra

O carnaval passou a ser coisa do passado em minha vida até eu virar o ano e decidir que tudo vai ser diferente, de novo. Quero paz, amor e samba, por isso vou ao Rio semana que vem para calibrar a veia. Ir atrás do Simpatia É Quase Amor e me deixar levar por qualquer batucada de esquina, de praia em praia, de bar em bar.

 

Inocente, achei que o mundo estava nesse ritmo indolente, ainda saído de fóruns sociais e mundiais. Até começar a ouvir em francês, depois em português, notícias de umas charges que faziam gozação com o profeta Muhammad. Até encarei a reação, indignada no início, como mais uma bizarrice de gentes tão diferentes de nós, cristãos nem tanto, mas depois...

 

Ouvindo aqui e ali, concluí que este mundo é mesmo um pelotão pronto para a guerra.

 

Pois não é que os chargistas, em vez de darem um olé pros babacas que, no Ocidente e no Oriente, brigam por uma hegemonia estúpida de conquista de mentes – Bush com seu obscurantismo de direita branca e muçulmanos com seu obscurantismo moreno – resolveram cair na trincheira e virar bucha de canhão?

 

Se eles pensam que isso é liberdade de expressão, que venham se expressar também sacaneando estrelas de David, cruzes e... Ave Maria, Godard foi muito mais ousado!!!

 

Primeiro os escandinavos que, bem entendo, só aparecem na mídia para mostrar que vivem num conto de fadas com suas neves e loiras lindas. Tá bom, conseguiram seus quinze minutos de glória.

 

Mas os franceses não precisam disso. Além de Godard, eles têm Voltaire, Balzac, Proust. País colonizador, a França convive hoje com a diversidade, e, diante dos conflitos sociais, promove debates e mais debates. Os franceses fizeram a revolução que separou a igreja do estado... Têm Paris. Precisam mais de quê pra aparecer? Pegou mal, queimou o filme o Charlie Hebdo, que hoje mostrou uma nova charge.

 

Os islâmicos que se explodem em ônibus e estações aparecem mal na fita tanto quanto.

Mas por que ofender a crença deles, se a nossa (digo, ocidental e neoliberal) também é tão primária e cruel?

 

Não existe liberdade quando se busca a discórdia e se afronta a mais linda lição cristã: a fraternidade.

Apesar da barbárie, vou tentar encontrar um verdadeiro carnaval. No Rio. 

Escrito por Sandra Crespo às 00h47
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06/02/2006


O olhar feminino sobre eles

Borrei a maquiagem depois de “Brokeback Montain”. Não esperava chorar, apenas me encantar com a paisagem e com o romance entre dois homens bonitos. Mas história de amor é assim mesmo em qualquer situação, emociona e faz pensar.

 

Como fui a um cinema de shopping, já esperava a reação dos engraçadinhos durante as cenas de sexo. Berros e risadas. Nada mais do que chiliques – é esse o nome – dos machões que se incomodam em ver o que preferem ignorar. Mas se não queriam ver, por que se deslocaram até o cinema e pagaram entrada? Não podem dizer que não sabiam do que se tratava, pois sinopse e propaganda do filme mais indicado ao Oscar não faltaram.

 

O fato é que, depois que a história foi evoluindo, todo mundo ficou quietinho, e talvez até, como eu, derramando algumas lágrimas.

Não quero dizer aqui que todo mundo é gay, aliás, esta é uma mania que alguns gays têm: dizer que todas as criaturas que transam apenas com o sexo oposto são enrustidas etc.etc.

 

Só acho engraçada a postura de alguns homens que ainda teimam em achar bizarro o sexo entre iguais. Entre iguais masculinos, ressalte-se, pois entre mulheres eles acham o máximo. Não é à toa que tantos filmes pornôs exploram essa fantasia adoidado, com um sortimento incrível de louras peitudas, unhudas e de salto alto. Vestidas com seus indefectíveis corpetes de renda e cinta-liga branca ou vermelha, elas gemem sem parar se esfregando umas nas outras enquanto o macho fica apreciando, sempre alerta para entrar em cena a qualquer momento – e dar o glorioso arremate, pois afinal, é daquilo que elas gostam...

 

Tudo isso para me perguntar, na verdade, o que as mulheres pensam e sentem ao ver dois homens se amando (ou fazendo sexo). Normalmente mais tolerantes do que os homens quanto à homossexualidade masculina, muitas mulheres têm fiéis e íntimos amigos gays. Mas será que elas os vêem também como homens?

 

Tenho essa pergunta na mente há algum tempo e por isso andei sondando algumas mulheres sobre o assunto – antes de elas assistirem a “Brokeback”. O veredito é sempre o mesmo: acham hor-rí-vel.

 

Eu não acho. Melhor dizendo, acho lindo.

 

Que tal responderem aqui neste espaço? Será divertido discutir esse assunto, pois, no fim das contas, penso que estamos na era gay is beautiful.

Escrito por Sandra Crespo às 23h31
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16/01/2006


Michelle Bachelet, uma poderosa que pode ser bacana

O Chile agora tem uma presidenta (ou melhor, uma presidente, eu acho feia essa flexão de gênero). Hoje, ao fazer um exame médico próprio de mulheres, ouvi médica e auxiliares comemorando o fato. “Aqui bem podia acontecer isso”, disse uma delas. Eu, sinceramente, não compartilho de tal esperança. Gostei de saber que a Michelle Bachelet foi eleita, mas não por ser mulher, e sim, por ser socialista e uma mulher bacana, ao que parece. Ouvi dizer que, quando era ministra, Bachelet tinha tempo para, na hora do almoço, ir comprar papel manteiga para um trabalho de escola do filho. Comparo essa atitude a muitas que testemunhei, sobretudo de políticas e de jornalistas: tudo pela carreira e, se sobrar tempo, vida pessoal, filhos e amigos.

As mulheres no poder normalmente reproduzem o mundo dos homens e, pior, o fazem de um jeito mais realista do que o rei. Costumam ser mais rígidas, a fim de mostrar que levam a eficiência e a produtividade a sério. Do contrário, quem as respeitaria?

Mulher que faz e acontece, mas ainda tem tempo pra buscar a felicidade, isso sim é uma raridade. O livro da Danuza (este último) conta uma passagem interessante: Leila Diniz, a grande musa da liberdade nos anos 60/70, deixou de ir a uma festa badaladíssima em Porto Alegre a fim de ficar conversando com seu amado Ruy Guerra pelo telefone, num quarto de hotel. Leila tinha tempo de fazer filmes legais, teatro e ainda contar piada, sair com os amigos, amar e curtir o barrigão de biquíni na praia de Ipanema.

Já Heloísas e Zulaiês me dão uma preguiça, uma total falta de saco para as “musas” do momento. Elas, que só vociferam nas salas do Congresso Nacional, destilando seus venenos e seus bordões moralistas, fazem o maior sucesso entre mulheres. No mundo das artes e da beleza, sobra quem? Giseles e Isabelis, lindas por fora, mas ocas, tadinhas.

Sei que não é fácil ser mulher e ser respeitada como um ser humano à altura de quem ostenta volume entre as pernas. Também eu caí, e ainda caio, em muitas dessas armadilhas montadas desde que a riqueza surgiu, desde que os homens descobriram que, para acumular, precisavam comandar. Sei que preciso trabalhar muito bem, deixar a casa limpa e arrumada – mesmo que não faça com as próprias mãos, porém administrando. Sei também que meu filho tem de ser bem educado, que tem hora da escola, do inglês, do basquete e tudo mais, que tem de levar dinheiro pro ônibus. E, mesmo cansada e com preguiça, ainda tenho de comer menos, malhar, ficar relativamente gostosa para não ser mais um ser abandonado neste mundo.

Sei que a maioria dos homens não ocupa a cabeça com tantas coisas pequenas; por isso, tem mais tempo para pensar, produzir, fazer sucesso e se divertir também.

Sei de tudo isso. Mas não posso ignorar que os homens não têm, como nós, certos feelings absurdos, uma ternura singular e sensações fantásticas – como a de parir, exemplo nada original, porém essencial.

A maioria dos homens não fala abertamente de sentimentos e também não tem bobeiras tão gostosas quanto uma a que assisti, como participante de um jogo de futebol feminino, no momento de uma cobrança de escanteio: no calor da partida, uma jogadora fez uma observação fundamental para o placar, dirigindo-se à goleira: “Nossa, onde você comprou esse tênis lindo?”.

Mulher pode fazer isso e muito mais. As mulheres podem mudar as regras do jogo ao ganhar poder. Porque de regras nós entendemos muito bem.

Boa sorte, Michelle Bachelet! Que as deusas te guiem.

Escrito por Sandra Crespo às 17h46
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04/12/2005


O samba da minha terra

Não tem explicação, mas voltei a gostar de Maria Bethânia. Não sei bem por que deixara de apreciar sua voz rouca e vigorosa. Não, não foi a voz, mas sim o repertório tão romântico, quem sabe eu queria deixar de sê-lo? O fato é que hoje eu achei lindo ouvi-la cantar que vem até remoçando...

Parecido foi meu afastamento gradual do samba. Parei de freqüentar rodas de samba, de comprar discos de samba, talvez pelo fato de não poder “perder tempo” aos sábados em mesas de boteco, afinal, uma coisa puxa outra e, pronto, o dia acabou e você só quer mesmo é desabar numa cama para curar a carraspana.

Mas o samba nunca me abandonou, e hoje, também no rádio, ouvi um tal de “Arranco de Varsóvia” fazendo miséria, como o locutor disse, com um samba adorável de Chico Buarque (redundância), “Biscate” (“quem mandou tomar conhaque/com o tíquete que te dei pro leite”).

E descubro novos intérpretes além desse Arranco, que me transportam à Lapa e aos "pés sujos" da minha adolescência, onde eu acompanhava, sempre cantando mal, porém sabendo todas as letras, abnegados instrumentistas.

Falo de Bethânia e de samba afinal para dizer que busco nas minhas raízes um abrigo contra a tristeza. De ver o Brasil andar pra trás, de ver um ônibus ser queimado, cheio de passageiros, por uma menina de treze anos. A mesma idade que eu tinha quando freqüentava rodas de samba e estudava, namorava e ia ao cinema...

O samba me faz ter orgulho de ser brasileira (“Fume Ari/ Cheire Vinícius/ Beba Nelson Cavaquinho”).

Quando eu tinha mais ou menos treze anos, já em Brasília, tive o privilégio de assistir a um show de Nelson Cavaquinho com Clementina de Jesus no teatro da Escola Parque. Fui levada pelo meu vizinho carioca Amadeu, que, como papai, torturava-se com as lembranças do Rio e buscava em qualquer farra aspirar um pouco de maresia (“Eu tenho tesão é no mar”, ele repetia).

Papai não conseguiu voltar pro Rio, acabou indo pro Céu não muito tempo depois, talvez para lá tomar uma cerveja com Noel e Ismael Silva e ficar conversando fiado enquanto esperava a chegada de Vinícius, Tom e Zé Kéti.

Agora eu volto a comprar discos de samba, mas ainda não consigo ir aos botecos para ficar o dia todo desafinando e desafiando os músicos, sei lá, acho que esse tempo acabou aqui no Brasil.

Dá vontade de pular o muro de uma embaixada e pedir asilo para não ver a sujeirada que será a campanha do ano que vem. Mas, para onde quer que eu vá, terei saudade, não dessa merda toda, mas da música que me embalou por toda a vida. Se eu pudesse “saltar” 2006 eu o faria, como teria feito com este ano de 2005 se adivinhasse como ele iria ser difícil. Quem sabe virá algo de bom num futuro próximo, quem sabe a classe média brasileira deixa de ser elitista e individualista, quem sabe neste país ainda caiba alguém como Vinícius.

Não dá para adivinhar o quanto o Brasil pode nos surpreender. Por isso a gente toca pra frente, por isso a esperança.

Enquanto isso, a gente vai ouvindo um sambinha, não faz mal nenhum.

 

Escrito por Sandra Crespo às 16h11
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01/12/2005


Haia

O que te resta, Zé Dirceu? Recorrer a Haia?

Hoje seu mandato de deputado foi cassado pelo Plenário. Votou-se um relatório que não existe, já que as supressões impostas pelo Supremo não foram votadas pelo Conselho de Ética.

Assim, você é um meio-cassado, pelo menos para mim. Os deputados teleguiados pela mídia e pelos mil tostões cassaram esta noite o direito de os “diferentes” ocuparem os poderes da República.

Não tenho dúvida de que você errou. Aliás, nem só você, que agora vive fazendo autocrítica. Mas isso, nossos erros e dúvidas, nossas idas e vindas, são apenas um detalhe.

Embora, para mim, essa história de engolir PL, PTB e PP tenha sido inimaginável. Não acredito até agora que você entrou nessa de cabeça. Se entrou, foi o equívoco fatal mesmo, a gente não poderia ter optado pelo caminho tão fácil da mediocridade. Não concebemos, como seres humanos que somos, a idéia de ter como aliados Roberto Jefferson, PP e os crentes da Universal.

Temos uma rima melhor: PT e MST. Somos mais fortes e vigorosos. Até diante do Velho Mundo, que jogou fichas nessa empreitada.

Por isso não entendo tanta submissão.

Mas eu te perdôo até por isso, hoje. Porque você é muito mais interessante e vivo do que a solidão do poder. Você é o mau garoto que estraga a festa das elites. Nunca vão te digerir. Lula paz e amor é bonzinho a sua vista.

Bad boy, eu sempre acreditei na sua inteligência, e, tão importante quanto, no seu amor pelo Brasil. Pois não é qualquer um que faz plástica no rosto só pra voltar para cá. Logo num rosto tão bonito...

Enfant terrible,

Vá a Haia, ao TPI

à Anistia Intenacional,

aos Médicos Sem Fronteira,

à Care,

à Associação dos Amigos da Água Mineral de Brasília,

ao grupo homossexual Arco Íris

ao cu do mundo.

Peça espaço,

Peça justiça.

 

Hoje vi que vão demorar mais do que pensávamos os acontecimentos que tanto almejamos.

E hoje, mais do que nunca, acredito que não poderemos tomar parte neles.

Sinceramente,

Sandra

Escrito por Sandra Crespo às 02h42
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27/10/2005


Tempos modernos, mentes medianas

        

        

         A gripe aviária chegou ao Continente pela Colômbia, será que por um carregamento de pintos de um dia? As autoridades sanitárias brasileiras se mobilizam, agora divididas entre sacrificar vacas com febre aftosa e dizimar galinhas, patos e papagaios. Na França, todos os bípedes emplumados já estão devidamente confinados para não interagir com as perigosas aves migratórias. Os Pássaros superaram Bodega Bay e tomaram o mundo.

         Enquanto isso, árabes e judeus levantam espadas para dar suporte à guerra santa de Bush e seu exército de cristãos pios, enquanto esperam as bombas dos iranianos, norte-coreanos e a gripe do frango.

         A Peste Negra chega pelo ar também com outros nomes – tsunami, Katrina, Wilma - e adentra a rede mundial de computadores por meio de vírus igualmente mortais.

         Toda a humanidade está condenada. Águas invadem as costas indonésias, caribenhas e estadunidenses. Águas escasseiam na rain forest, fazendo com que tambaquis e pirarucus sejam transportados de jipes e caminhões para rios um pouco mais caudalosos, a fim de que não sucumbam de vez como espécies. Os jipes e caminhões decerto têm de desviar das gigantescas florestas horizontais, formadas pelos troncos de árvores derrubadas a cada segundo pelos bandeirantes do Norte.

         Somos o povo escolhido para assistir ao Final dos Tempos, como o foi aquela gente bárbara que tomou a Cruz e sobreviveu às intempéries e à Peste, entre os séculos 11 e 14.

         Mas somos modernos também. Afinal, temos o nosso Robespierre, que prepara o pescoço para a guilhotina que se monta exatamente no dia de hoje, no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. A máquina purificadora da ética na política mostrará toda a sua eficácia no Juízo Final, marcado para 9 de novembro.

Depois de rolar a cabeça de Dirceu, virá um Napoleão, aleluia, irmãos, está escrito. Antes do Final dos Tempos, ele virá, para que a nossa terra cumpra seu ideal e se torne um império colonial!

Também antes desse Grande Evento planejado por Nosso Senhor poderemos nos defender da barbárie. Teremos armas de vários calibres para todos os clãs, já que consagramos semana passada a Verdade Eterna de que a segurança pública é incapaz de proteger os cidadãos de bens.

Ajoelhemo-nos, pois, diante da Boa Nova. Os servos do Demônio estão sendo expulsos do Paraíso Tropical. Essa raça de desclassificados, feios, sujos e malvados.

A Peste Negra virá nos redimir das chagas de Cristo. E os eleitos habitarão o Novo Mundo da Lua, de Marte e de Vênus, onde estações espaciais maravilhosas formarão escudos contra todos os flagelos, onde corre leite transgênico de ovelha clonada e mel sintético, produzidos pelos mais renomados laboratórios transnacionais.

Escrito por Sandra Crespo às 13h45
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