Ancelmo Gois, Eu leio sua coluna no Globo há muito tempo. Embora eu não concorde com tudo o que você diz (e nem é essa sua intenção, claro), eu gosto muito. Acho bacana a informalidade, aprecio suas declarações de amor ao Rio e às mulheres, admiro o senso de humor. Então, eu vou tentar não ser mal-humorada, mas estou furiosa com você. Por causa de uma nota, publicada hoje, cujo título é "Miss Biônica". A nota diz: "As candidatas a Miss Brasília 2008 não foram escolhidas por concurso, mas por indicação. Sabe como é. Faz parte dos usos e costumes nativos ungir pessoas por indicação política." Poxa, Ancelmo, agora você pegou pesado. Primeiro porque a população de Brasília em particular – e a do Brasil, em geral – não está mais nem aí para concurso de miss. Segundo, a história mostra que eleições livres Brasília só conhece desde 1986. Antes disso, as regras do regime militar impediam a população do Distrito Federal de escolher seus representantes. A partir daí, elegemos a cada quatro anos governador, 24 deputados distritais, oito deputados federais e três senadores. Portanto, indicação política foi um costume "nativo" durante os anos de chumbo, não uma opção dos habitantes de Brasília. Terceiro, Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Quer dizer então que eu, nascida (em Minas Gerais) três anos depois, não vivi para ver o Brasil ético, puro, sem ladrão nem corrupção. Claro, porque parece que toda essa esculhambação surgiu no momento em que Juscelino trocou a capital do País. Senão, vejamos: os políticos, que são eleitos pelas populações dos 27 estados, vêm para Brasília puros e castos. Mas esta terra vermelha, este céu absurdo, estes prédios modernistas fazem miséria, dão um nó no passado ético desses santos representantes. Então eles se transformam no cão de calçolão e danam a fazer falcatruas a torto e a direito. Maluf era um exemplo de retidão até ser eleito deputado federal e começar a respirar este ar corrompido do Planalto Central. Collor, coitadinho, veio para Brasília inocente como um bebê. Mas o demônio o aguardava na Casa da Dinda, às margens do nefasto lago Paranoá. Assim foi com outros governantes, juízes, deputados e senadores... Caro Ancelmo, vindo da Daniela Cicarelli até que dá para agüentar. Mas de você...dói. Porque penso nos brasilienses que conheço e que suam para ganhar o pão de cada dia. Penso no meu filho adolescente que aqui nasceu e está sendo criado, e nos filhos dos meus amigos e dos operários, das empregadas domésticas, dos porteiros e babás que ralam no Plano Piloto e vivem em Ceilândia, Samambaia, Riacho Fundo e Recanto das Emas. Fica parecendo que esse pessoal não está à altura do resto do Brasil, pois é de Brasília. Nossa cidade abriga muita gente. Pessoas que ficam por aqui também nos fins de semana, enquanto os políticos estão em seus estados. É uma cidade muito maior do que eles. Por isso mesmo, cheia de encantos, mistérios, conflitos. E defeitos também. Uma cidade brasileira. Então, é este o furioso recado. Aquele abraço!



Leia este blog no seu celular